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Blog_williamO “espetáculo midiático” havido a partir da morte do cantor sertanejo é um fato que pede alguma reflexão.

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Leio uma coluna na Folha de S.Paulo? que traz a informação de que ontem foi só a 3ª vezes ao longo dos últimos dois anos em que a Globo deixou de exibir a Sessão da Tarde em troca de manter no ar uma “cobertura jornalística”. As outras duas foram nos protestos de julho de 2013 e outra quando da queda do avião de Eduardo Campos.

Ora, os dois primeiros motivos são jornalisticamente relevantes, pois em ambos se vivia um momento diferente para a política nacional, de modo que envolviam todos nós. No entanto, no caso do falecimento do casal de ontem, não. Não há nem que se dizer que se tratava de pessoas “nacionalmente relevantes”.

Por mais que a afirmação soe indelicada, o fato é que todos os dias muitas pessoas morrem em estradas pelo Brasil. Para que se tenha uma ideia, segundo dados oficiais, no ano 2013 foram 8.375 pessoas que morreram em acidentes apenas em estradas federais.

Mas a Globo parou a sua programação. Desconsiderando-se a queda cada vez mais acentuada do “Padrão Globo de Qualidade”, o que vejo é que a Globo “surfou” numa tendência óbvia da sociedade: o seu fascínio pela desgraça do outro. Além disso, ela também seguiu uma realidade bastante comum às pessoas: a empatia como o sucesso alheio.

Não é comum que a grande maioria das pessoas se pegue pensando nos casais de jovens que podem estar morrendo nesse momento vítimas de algum acidente. Não é comum que nos peguemos lamentando os vários pais e mães que podem estar se perguntando “será que Deus existe?”. Mas quando vemos alguém que enriqueceu, que angariou relativa fama com um talento artístico, então nos pegamos confrontados com o nosso maior medo: a morte dos nossos sonhos.

Sim, porque o aparente sucesso que esse rapaz vinha tendo é o sucesso que a maioria de nós gostaria de ter. O dinheiro que ele vinha ganhando é o dinheiro que a maioria de nós gostaria de ter. E a juventude que ele ainda tinha, somada a tudo isso, corresponde a algo muito próximo do ideal de vida que a gente gostaria de ter. Quando morre alguém jovem, rico e conhecido, morrem como ele o sonho que sonhamos muitos de nós sonhamos para nós.

E, a partir daí, a morte vira um espetáculo. Às avessas, mas um espetáculo. Não raro as pessoas começam a imaginar como seria se elas é que fossem ricas, conhecidas, jovens e… mortas. Começam a se colocar no lugar do “famoso quem” e daí postam fotos dele (porque, um dia quem sabe, alguém postaria fotos suas), postam fotos com ele (para “retribuir” a homenagem que um dia lhe fariam como a ele) e pouco a pouco vão mudando de lugar e imaginam as honras que receberiam, as glórias que lhes dariam, as lágrimas que se lhe derramariam e começam a consumir mais e mais daquilo porque, de um outro jeito ainda mais egoísta, gozam o alívio de terem visto seus sonhos morrerem no outro, mas de, mesmo assim, ainda estarem vivas. A vida que acabou foi só a do outro.

O ser humano não é tão altruísta e nem goza de tanta empatia desarrazoada ou na razão de também ser humano. Assistir as honras pela morte do outro é pode ter a certeza de que está vivo e saber que está vivo é, em pouco tempo, reviver cada sonho de novo, dessa vez reprojetados na figura do novo ídolo do próximo verão. E tudo isso até a próxima morte famosa de alguém nem tão famoso assim, mas que, “se não for minha, melhor pra mim”.

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