Compartilhe
Share on whatsapp
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
12
ago
2020

Blog do William – Ditadura ontem e hoje

Nos últimos tempos, muito em razão dos sucessivos escândalos de corrupção envolvendo o partido que vem ocupando o governo federal ao longo dos últimos 12 anos, pessoas de todas as ordens passaram a discutir eventuais vantagens e desvantagens do Brasil voltar a ser governado por militares.

O debate é dos mais apaixonados, havendo diplomados e não diplomados, todos munidos de bons e maus argumentos em ambos os polos da discussão.

Não custa lembrar que na história do Brasil o governo na forma de Ditadura não é exclusividade dos 21 anos que vão do governo Castelo Branco até o governo Figueiredo, mas que antes disso, Getúlio Vargas – tido por muitos, como um dos melhores presidentes da história do Brasil – manteve um governo centralizado na sua pessoa por 15 anos.

Ademais, cumpre que se observe que o Brasil, por seus anos de colônia e por uma independência monárquica, nunca se mostrou um país onde os ideais republicanos fossem suficientemente enraizado, de modo que não é possível se dizer que o povo brasileiro morre de amores por essa democracia ainda tão incipiente, o que finda por contribuir com os ânimos que não se constrangem em clamares por uma intervenção militar.

De minha parte, tendo sempre a achar que não há Ditadura alguma que seja boa (ainda que a de Cingapura tente me desmentir). Mas se trago esse assunto à baila, é menos pra falar sobre o governo militar de 1964 (que os ideólogos do período pós-anistia geral, total e irrestrita tentam fazer crer que foi terrível, mas que também teve muitos acertos) e mais pra falar sobre a ditadura que vivemos hoje.

Sim. Talvez você não tenha se dado conta, mas vivemos períodos delicados de um controle muito assemelhado ao das ditaduras mais engajadas. Vivemos um período de ditadura das opiniões.

Os mais apressados dirão que essa afirmação é absurda, porque hoje ninguém é preso ou torturado por emitir opiniões (e isso seria dito, principalmente, por aqueles que se deixaram enganar pelo discurso romantizado dos que afirmam que no governo militar qualquer um que pensasse e opinasse seria perseguido pelo que pensava, quando, na verdade, combatiam aqueles que pensavam contra o Brasil e queriam o comunismo aqui). Esses apressados, enganados e enganadores, gritariam a plenos pulmões que estamos numa democracia onde é dado a todos se posicionarem como bem quiserem, desde que não extrapolem os limites do bom senso ou do que é politicamente correto. E aqui começa a ditadura mais recente e funesta que podemos experimentar.

Hoje vivemos a ditadura do politicamente correto e, na medida em que o politicamente correto defendido é a defesa das minorias, vivemos tempos em que podemos falar o que quisermos, desde que não seja contra as minorias, ou então, seremos lançados à berlinda e da berlinda ao ocaso, depois de vilipendiados pela opinião pública de um público repleto de ressentimento contra quem ousou “pensar” e “expressar” o que pensa.

Querem inventar um “crime de opinião”. Agora, qualquer coisa que saia do que alguém determinou “aceitável”, passa a ser acusado de crime de ódio ou de incitação ao ódio. Se alguém diz que homossexualidade é pecado, é errado, é absurdo, é opção, é “sei-lá-o-que”, passa a sofrer uma campanha de ridicularização ou até de destruição de sua pessoa.

O mesmo vale para quem se atreve a gostar apenas de branco, ou de quem é do sul, ou de europeus ou de quem concluiu e completou o 2º grau. Da mesma forma, ou você se incomoda com o direito dos índios, com a ascensão do pobre, é antiliberal e contra a pena de morte, ou então você é um reacionário-sem-consciência-social-vendido-para-o-sistema-do-capital.

As pessoas andam com cada vez mais receio de expressarem sua opinião. Que bom que surgem figuras muitas vezes controversas e de excessos como Bolsonaros e Malafaias (e tantos outros) que ajudam a calar bocas absurdas e abafar histerias de gente como Jean Willys, Maria do Rosário e Luciana Genro.

Mas é imperioso que nos posicionemos cada dia mais e que não temamos nos expor. É preciso que subvertamos essa ordem imposta por uma minoria que persegue, justamente, para inibir a fala e fazer calar. Temos que evitar que a “profecia” de Orwell em seu “1984” se realize. Não podemos admitir uma “polícia do pensamento”. Temos que ter o direito de aceitar e não aceitar. De gostar e de não gostar. Pensar livremente deve ser o principal direito e tem que ser estimulado e não censurado. A ninguém é dado dizer ao outro o que não pode ser pensado.

No livro “1984”, a personagem principal, relatando sua realidade, escreve: “Crime de pensamento não implica morte: crime de pensamento ‘é’ morte”.

Não podemos deixar que isso aconteça no nosso Brasil. Se omitir é estar morto estando vivo. É escolher deixar de viver enquanto os que lutam pelo nosso silencio contam a história ao seu modo deturpado. Não! Precisamos dar sentido aos nossos dias e à nossa história. Não podemos ter medo de sermos julgados e condenados por quem é pior do que a gente. Devemos estar prontos para irmos além do grito de Pedro às margens do rio Ipiranga: não é mais “independência ou morte”. Agora, é vida independente do medo da morte. É dizer tudo e jamais ficar sem dizer nada.

Notícias Relacionadas